Perder urina durante o treino de CrossFit é comum, mas não é normal — em nenhuma idade. É sinal de incontinência urinária de esforço: o escape que acontece quando a pressão dentro da barriga aumenta, e não porque deu vontade de ir ao banheiro. Uma revisão que reuniu 13 pesquisas com praticantes estimou em 44,5% a prevalência de perda de urina entre elas, e em 81,2% dos casos era exatamente esse tipo. Acontece inclusive com mulheres que nunca engravidaram e que estão em ótima forma física — e tem tratamento, quase sempre sem parar de treinar.
Quase metade. E tem uma frase que eu ouço demais no consultório, e já sei de cor: “parece que escapou… aí eu fui ver, não foi nada”. Esse é o primeiro sintoma. Não o segundo, não o aviso — o primeiro. E o que também vejo é que quase nenhuma dessas mulheres comenta o assunto no box: ajusta o short, termina o WOD e não fala nada. É esse silêncio que me incomoda mais do que o próprio sintoma — porque, estatisticamente, a colega do lado provavelmente convive com a mesma coisa.
Como isso costuma começar?
Passa batido, porque a quantidade é pequena e dá para seguir o treino. Então o treino continua igual.
Com o tempo o escape vira certeza: aumenta em quantidade, em frequência, aparece em movimentos que antes não faziam nada. E chega no ponto mais revelador de todos — você passa a ir ao banheiro duas, três vezes antes de começar, porque sabe que senão vai escapar. Em vez de entrar no ritmo, você está calculando banheiro. A rotina se reorganiza em volta de um sintoma que continua sem nome e sem tratamento.
Por que escapa no double under e no box jump?
Porque são os movimentos que mais aumentam a pressão dentro da barriga em pouquíssimo tempo. Você salta, aterrissa, e tudo que está dentro do abdômen é empurrado para baixo de uma vez — o assoalho pélvico precisa responder num reflexo, no instante exato do impacto. Se essa resposta chega atrasada ou fraca, escapa.
Os relatos seguem sempre o mesmo padrão: double under, box jump, wall ball, burpee, agachamento com carga. Salto, aterrissagem e carga. Não é coincidência, é mecânica — e é o que a literatura mostra, com os exercícios baseados em saltos associados de forma consistente ao escape.
Também é comum escapar mais do meio para o fim do treino. O assoalho pélvico cansa como qualquer músculo: com a fadiga, o movimento que você fez no primeiro round faz escapar no quinto. Não foi azar, nem água demais.
Então é só fortalecer?
Nem sempre — e aqui está a peça que quase ninguém enxerga: força sem percepção. A maioria das mulheres nunca precisou ter consciência do assoalho pélvico. Quando faz força, ela vai toda para o ventre baixo: a pressão desce, empurra a musculatura, e isso se repete centenas de vezes por semana. Não é o exercício que está errado. É que ninguém ensinou para onde mandar a força.
E nem sempre o problema é músculo fraco. Muita atleta tem o assoalho pélvico tenso demais, contraído junto com o core, e músculo que nunca relaxa também não responde na hora do impacto. É como um elástico esticado há meses. Por isso sair fazendo Kegel por conta própria pode piorar em vez de ajudar.
Quem tem mais chance de passar por isso?
Duas crenças que eu preciso desmontar.
“Isso é coisa de quem teve filho.” Não é. Aparece em mulheres que nunca engravidaram e que estão em ótima forma física. Corpo forte não significa assoalho pélvico coordenado.
“Depois de certa idade é esperado.” Também não. Mulher de 55 que treina pesado merece a mesma atenção que uma de 25 — e costuma receber menos, porque todo mundo em volta trata o escape como consequência natural da idade.
A revisão das 13 pesquisas com praticantes de CrossFit identificou três fatores associados: idade, índice de massa corporal e número de partos. Repare que idade está na lista — e tudo bem que esteja. Fator associado quer dizer que aparece com mais frequência, não que é para ser assim e pronto. Pressão alta também é mais comum depois dos 50, e ninguém diz para conviver com ela.
O CrossFit faz mal para o assoalho pélvico?
Não é bem assim. O que exige do assoalho pélvico é o alto impacto — e isso vale para a corrida, para o vôlei, para a ginástica. O CrossFit aparece mais nas pesquisas porque combina impacto, carga e alta frequência — e porque foi ele que virou objeto de estudo nos últimos anos.
De todo jeito, o CrossFit não cria o problema do nada. Ele revela, mais cedo, uma musculatura que não estava preparada. E revelar é bom: é a chance de tratar antes que cresça.
Preciso parar de treinar?
Na imensa maioria dos casos, não. Essa é a pergunta que mais ouço, e eu entendo o medo por trás dela — o box costuma ser onde estão as amizades e a saúde mental. Abandonar não é um preço que você deveria pagar.
No começo o escape costuma ser pequeno, e é justamente isso que faz a maioria adiar. “Foi pouquinho”, “não atrapalhou o treino”, “depois eu vejo isso”. É no tempo do adiamento que a coisa se move.
Porque o que me preocupa não é quem para. É o caminho do meio: quem não para, mas vai diminuindo. Troca o double under por single under, pula o box jump, escolhe o WOD pelo que não faz escapar. Nenhuma dessas trocas parece grande sozinha. Juntas, o treino vai encolhendo por dentro, sem que ninguém perceba de fora.
Se você está grávida ou no pós-parto, a conversa muda e merece avaliação individual.
Quando eu devo procurar uma fisioterapeuta pélvica?
Assim que aparecer aquele “parece que escapou”. Não existe quantidade mínima — se você já mudou alguma coisa no seu treino por causa disso, já é motivo suficiente.
Vale procurar se você:
- Sente que escapou, vai conferir e acha que não foi nada
- Escapa mais do meio para o fim do treino
- Vai ao banheiro várias vezes antes de começar
- Escapa no double under, no box jump ou no agachamento com carga
- Usa absorvente para treinar, ou short escuro para disfarçar
- Evita ou modifica movimentos por causa disso
- Escapa também ao tossir, rir ou espirrar
- Sente peso ou pressão na região íntima depois de treinar
O último merece atenção especial: sensação de peso pode indicar outra coisa além de incontinência, e é motivo para avaliar sem demorar.
Como a fisioterapia pélvica trata?
Começo ouvindo a sua rotina de treino — em que momento escapa, quais movimentos fazem escapar —, e faço uma avaliação física específica do assoalho pélvico. É ela que mostra se a musculatura está fraca, tensa ou descoordenada, e cada achado pede uma conduta diferente. É por isso que programa genérico da internet raramente resolve.
Boa parte do trabalho é devolver a percepção: sentir a musculatura, saber para onde mandar a força. A partir daí eu monto um plano individual, que pode incluir treino de força e de coordenação, respiração, técnicas manuais, biofeedback e ajustes na execução de alguns movimentos.
Eu gosto de acompanhar o que a literatura vem mostrando, e aqui ela é clara: a revisão da Cochrane, com 31 ensaios clínicos e 1.817 mulheres, concluiu que esse treinamento melhora os sintomas e a qualidade de vida e pode ser incluído em programas conservadores de primeira linha.
O número de sessões varia conforme o caso. Ninguém prevê isso na primeira conversa, e eu prefiro dizer isso com honestidade a prometer um prazo que não depende só de mim. 💜
Perguntas frequentes
Se você chegou até o fim deste texto, provavelmente não foi por curiosidade. E se você já organiza o seu treino em volta disso — o short escuro, o absorvente, os banheiros antes do WOD — dá para parar. Vamos olhar o seu caso.
Agende uma avaliação comigo — Juliana Donatoni, fisioterapeuta pélvica (CREFITO 338784-f), em Salto/SP.
Referências
- Dumoulin C, Cacciari LP, Hay-Smith EJC. Pelvic floor muscle training versus no treatment, or inactive control treatments, for urinary incontinence in women. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2018, Issue 10, Art. No.: CD005654. https://doi.org/10.1002/14651858.CD005654.pub4
- Dominguez-Antuña E, Diz JC, Suárez-Iglesias D, Ayán C. Prevalence of urinary incontinence in female CrossFit athletes: a systematic review with meta-analysis. International Urogynecology Journal, 2023;34(3):621-634. https://doi.org/10.1007/s00192-022-05244-z
- Lopes E, Apolinário A, Barbosa L, Moretti E. Frequência de incontinência urinária em mulheres praticantes de crossfit: um estudo transversal. Fisioterapia e Pesquisa, 2020;27(3):287-292. https://doi.org/10.1590/1809-2950/19028227032020
- Arbieto ERM, Fukuda FS, Da Roza T, Da Luz SCT. Pelvic Organ Prolapse Among Female CrossFitters and Non-CrossFitters: A Cross-Sectional Study. Sports Health, 2025 (online ahead of print, 30 nov. 2025). https://doi.org/10.1177/19417381251388125
Escrito por Juliana Donatoni — Fisioterapeuta Pélvica, CREFITO 338784-f. Atendimento em Salto/SP.

